A Fé na Ressureição – Pe. José Assis

“A fé dos cristãos é a ressurreição de Cristo” (Sto. Agostinho). Que Cristo tenha morrido, todos admitem, também os pagãos, também seus inimigos. Que Ele tenha ressuscitado, só os cristãos acreditam, e sem admitir esta verdade não se é cristão.

O coração do mistério e do anúncio cristão está todo nesta palavra “ressuscitou!” Por mais que repitamos que a ressurreição de Jesus Cristo é acessível só através da fé, gostaríamos de encontrar argumentos que demonstrassem ou provassem o fato da ressurreição do Senhor, algo que servisse para fundamentar nossa frágil fé. O único fato decisivo é precisamente a ressurreição do Senhor, e tal fato culmina o sentido de sua encarnação, de sua vida e de sua morte na cruz. A fé!

A fé é a única realidade que nos permite ir mais além da cruz e descobrir o verdadeiro sentido da vida e da morte do Senhor. Na medida em que a fé ilumine nossa mente e nosso coração poderemos aproximar-nos de Jesus e estabelecer com Ele uma relação ou experiência pessoal.

“Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judéia, a começar pela Galiléia, depois do batismo pregado por João: como Jesus de Nazaré foi ungido por Deus como Espírito Santo e com poder. Ele andou por toda a parte, fazendo o bem…” (cf. At 10, 34.37-43)

Este anúncio de Pedro fala de Jesus em sua realidade histórica, a partir de seu batismo, Ele abandona a solidão de Nazaré e percorre de um lado para o outro os povoados e aldeias anunciando o Reino de Deus. Passou fazendo o bem e finalmente morreu e ressuscitou. Estes dois acontecimentos são o centro de toda evangelização. Os apóstolos o repetiram por toda parte.

Diz o Apóstolo Pedro, “nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez”. O mataram numa cruz. Mas Deus o ressuscitou ao terceiro dia. Os apóstolos desfrutaram de um encontro com Jesus ressuscitado único e singular. Fizeram uma experiência interior pessoal e comunitária acompanhada de uma luz reveladora infalível que lhes revelou a convicção de que Jesus estava vivo, o mesmo que havia sido crucificado. Esta experiência íntima e objetiva se correspondia com a realidade da ressurreição. Uma experiência de um ser que transcendeu a história, mas que se faz presente de forma nova e singular na história da humanidade, começando pelos testemunhos.

Os apóstolos podem ser testemunhas seguras e infalíveis desta verdade. A partir de então nossa fé em Jesus passa pelo testemunho apostólico; nossa fé é apostólica. E é uma fé certa e segura, ainda que durante nossa peregrinação por este mundo segue sendo claro-escuro como não pode ser de outra maneira frente ao mistério de Deus. E a ressurreição de Jesus é um admirável mistério de Deus.

Jesus Cristo não é apenas um ser humano excepcional que possa ser comparado com outros, mas sim, Ele é o único Senhor, e não porque viveu em nosso mundo e “passou fazendo o bem”, mas sim porque é o Filho de Deus, aquele a quem Deus ressuscitou de entre os mortos. A ressurreição de Jesus pode ajudar-nos a compreender o sentido de sua encarnação, uma vida que não terminou com a morte, e sim que deu inicio a uma vida nova, uma graça que participamos através do Batismo.

O Batismo cristão não é uma superestrutura para nossa frágil condição humana, mas sim, uma graça que nos faz participantes da vida mesma de Deus-Trindade, uma vida “divina”.

A vida humana é limitada, experimenta a dor, o mal, o egoísmo, o sofrimento, a traição, o ódio, a morte, e isto por mais sublimes que sejam nossas aspirações. A fé cristã proclama que a única saída se chama Jesus Cristo, quer dizer, Jesus Cristo acolhido em nossa vida, aceitado como Senhor, o único Senhor de nossa vida. Foi precisamente Jesus quem disse a todos: “Se alguém quer me seguir, negue-se a si mesmo” (Mt 16,24), quer dizer, deixe de lado seu “eu”, morra a seu “eu”, se esvazie de seu “eu”, porque somente assim pode abrir espaço para acolher a Jesus Cristo em seu coração, o que significa experimentar que “é Cristo quem vive em mim.” (Gl 2,20)

Deixar que seja Jesus Cristo quem vive em nós implica que nos deixemos iluminar e guiar por seu Espírito, que tem a missão de fazer-nos entrar decididamente em sua órbita, a vida divina. Assim entendemos a exortação paulina: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar as coisas do alto, onde está Cristo… aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres.” (cf. Cl 3,1-4)

O autor da carta recorda que já desde o Batismo os crentes entraram em comunhão com o Cristo Glorioso. O sacramento realiza na pessoa humana uma maravilha: identificar a pessoa com Jesus morto e ressuscitado. A consequência desta identificação é a urgência de dirigir o olhar e a vida até onde está Cristo atualmente: à direita do Pai. O autor revela com isso o sentido de provisionaridade que tem todas as coisas, ainda que as que podemos pensar mais importantes, pela esperança da meta definitiva.

Ao longo do seu relato evangélico o autor do quarto evangelho tem insistido na força dos “sinais” para aproximar-se de Jesus e o seguir. Hoje o “discípulo amado” vê os “sinais” e acredita que Jesus estava vivo de outra forma e para sempre (cf. Jo 20,1-9).

“No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo… Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram.” A realidade do túmulo vazio é uma verdade que a interpretação evangélica atual dá por adquirida. Historicamente parece que se deve aceitar que em Jerusalém havia um túmulo em que esteve o Senhor. Este dado favorece a explicação da maravilha ocorrida naquela manhã.

Sabemos que o fato de que o túmulo de Jesus estivesse vazio não implica necessariamente sua ressurreição. A primeira reação das mulheres foi pensar que “tiraram o Senhor do túmulo”.

Maria Madalena acreditou na ressurreição de Jesus quando ouviu este a chamá-la por seu nome, não bastaram os sentidos para crer na ressurreição de Jesus. Necessita-se a experiência pessoal, o encontro pessoal, a vivência do coração. Isto é o que os cristãos temos de procurar, porque somente uma experiência de fé, uma vivência de Jesus Cristo vivo suscita e alimenta nossa fé.

A experiência do túmulo vazio requer a iluminação interior para compreender o acontecido realmente. Isso é o que quer dizer João quando afirma que o “discípulo que Jesus amava”, entrou no túmulo vazio “viu e acreditou”. O que ele “viu” com seus olhos foi que no túmulo não estava o corpo de Jesus, “as faixas de linho deitadas no chão e o pano que tinha estado sobre a cabeça de Jesus”. Mas, o crer do discípulo não foi causado pelo que viram os seus olhos, mas sim pelo que viu seu coração (cf. Ef 1,18), esse “coração que tem razões que a razão desconhece”.

O encontro dos apóstolos com Jesus vivo e ressuscitado foi mais profundo, mais sólido. Deus interveio de modo singular e privilegiado em favor dos apóstolos pregoeiros do magnífico acontecimento da ressurreição. A partir de então o ser humano tem a certeza e segurança de que seu destino volta a ser para sempre a vida e a vida gloriosa e feliz.

Celebrar a Eucaristia, Sacramento Pascal por excelência, é fazer a experiência do encontro com Cristo, é confessar nossa fé em Jesus Cristo vivo, ressuscitado, realmente presente no meio da comunidade cristã, “estarei convosco todos os dias”. (Mt 28,20) Tal presença é a razão de nossa alegria, a segurança da vida que nos espera, simplesmente porque Jesus Cristo venceu a morte, ressuscitou realmente. Aleluia!

Pe. Assis

Tópicos: